1056,3 | In-Fólio do Museu da Guarda | 2018

Apresentou-se ontem à comunidade o 1056,3 | Infólio do Museu da Guarda, no Museu da cidade pelo Ex.mo senhor Director do Museu, o Professor, João Mendes Rosa e pelo Professor Victor Amaral, Vereador da cultura da Cãmara da Guarda, que tutela o Museu.

Este ano, o In-Fólio traz um artigo meu, intitulado “A dialética da Fotografia”. Faço a introdução ao artigo da seguinte forma:

“O presente texto assenta numa palestra proferida na Midland Group Gallery em Agosto de 1977. Quis recorrer ao Realismo porque me parece mais linear e, em simultâneo, aparentemente antagónico, porque existem um conjunto de outros factores que influenciam tanto aquilo que, supostamente, seria a simples função da fotografia como representação da realidade. Oportunamente, irei desenvolver este artigo porque me parece pertinente aprofundar, além da questão da dialécica, as questões que têm que ver com a contextualização e com a justificação destas opiniões. Infelizmente, há sempre dificuldades de espaço quando se escreve para publicações e a necessidade de se ser sucinto impera.

Redigir um texto desta natureza, a dois, é também um desafio e a prova de que a arte também precisa de se contradizer a ela própria. Não foi porém escolhido um qualquer técnico ou profissional de uma qualquer área, mas sim uma pessoa ligada à literatura, o poeta Jorge Velhote. E a escolha não foi de nenhum dos autores, foi antes um desafio para que duas pessoas que desconhecem amplamente o trabalho de cada uma se desafiem num espaço discursivo e a partir dele manifestem as suas opiniões que, concordantes ou discordantes, sejam sempre enriquecedoras. Porque me parece que este é de facto o único caminho lógico e óbvio para as artes. Coube-me a mim começar, dando o mote e lançando o desafio da temática. Cabe ao Jorge, a seguir, “entrar no texto” e fazer a sua intervenção. O “sorteio” ditou assim. É opção minha não voltar a este texto, antes de estar publicado. Gosto de surpresas.

Rui Campos

O artigo faz um périplo por considerações da Fotógrafa Berenice Abbot, pelo professor Jonh Tagg e por Max Raphael, historiador de Arte. Apresentaas reflexões destes autores acerca da forma como o fotógrafo inevitavelmente influencia a forma como a imagem é feita e de como a avaliação do trabalho fotográfico não se faz pela mera comparação do assunto.

Partindo destes pressupostos, apresentados pelos autores referidos, o artigo faz uma caracterização do contexto actual da fotografia e termina com a apresentação de um desafio, propondo um reajustar da dialéctica actual da fotografia como uma oportunidade para museus, cada vez mais virados para o exterior e para a interacção com as comunidades, como uma opotunidade que deve ser tida em conta, quer pela apetência que a fotografia tem junto das comunidades, quer pelo papel educativo que os museus desempenham, quer pela facilidade de, por via da fotografia estes se poderem projectar globalmente e sem grandes dificuldades além da vontade de concretizar.

Apfresento ainda no texto algumas imagens da minha autoria, as quais explico, à luz dos enunciados, procurando assim também explicar de que forma eu idealizo as abordagens para o meu trabalho a nível pessoal.

Ainda não li a segunda parte do artigo, a que foi redigida pelo meu querido Jorge Velhote. Não li por opção minha, pois escolhi não ler ntes de a “resposta” dele estar publicada.

Apesar de a proposta de redigir um texto a dois não ter sido minha, antes um desafio que nos foi feito pelo Professor João Mendes Rosa, foi inefitável pensar em Rosalind Krauss e nos seus Espaços Discursivos da Fotografia. Pareceu-me um desafio excelente, este de termos dois autores, de sensibilidades diferentes, oriundos de realidades e com especializações distintas a produzir enunciados acerca de um assunto que lhes é comum comum. Segundo a autora (Krauss), é por via da criação de Espaços Discursivos distintos e pela sua proposição com outros autores que se gera o crescimento. E por isso mesmo, para que a questão passe a ser de inevitável discussão e para que esta seja feita à moda antiga, sem “volta atrás”, escolhi não ler a resposta do querido Jorge antes de esta estar publicada.

Espero ter algum tempo este fim de semana para lhe dedicar a atenção devida e dar então feedback ao Jorge.

O Infólio traz ainda artigos de cariz científico de ilustres guardenses. Fica por isso aqui o convite para a sua aquisição, no Museu da Guarda.

Rui Campos

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13/11 – Wasmo X. Wasmo

Waswo X. Waswo nasceu em Milwaukee, Wisconsin, nos EUA, faz hoje, 13 de Novembro, 65 anos.

Estudou na Universidade de Wisconsin-Milwaukee, no Centro de Fotografia de Milwaukee e no Studio Marangoni, no Centro de Fotografia Contemporânea de Florença, Itália.

O seu livro, India Poems: The Photographs, publicado pela Gallerie Publishers em 2006, está disponível em todo o mundo. O artista vive e viaja na índia há mais de dez anos e já morou em Udaipur, Rajasthan, nos últimos cinco anos, onde colabora com uma variedade de artistas locais, incluindo o foto-colorista Rajesh Soni. Também produziu uma série de pinturas autobiográficas em miniatura em colaboração com o artista R. Vijay.

Waswo é representado na Índia pela Gallerie Espace, Nova Delhi, e pela Serindia Gallery, em Bangkok, na Tailândia.

O Hindustan Times refere-se a ele, num artigo publicado em 25 de Abril passado, da seguinte forma:

Um vendedor de penas caminha com uma bicicleta carregada de penas de pavão. Um homem de turbante com ghungroos nos pés posa com uma arma. Um menino recria a postura icónica de Hanuman carregando a montanha Sanjeevani.

Estas são algumas das imagens da Photowallah, a mais recente exposição do artista americano Waswo X Waswo (63), de Udaipur. As imagens de Waswo são feitas através de um processo elaborado onde ele faz com que pessoas comuns posem para ele.

É como teatro, uma performance cooperativa. Nós denominamos as pessoas que posam para nós como modelos”, diz ele.

Os papéis que desempenham são baseados em pessoas que ele conhece na aldeia de Varda, nos arredores de Udaipur, onde tem o seu estúdio. Os cenários pintados retratam a folhagem e as montanhas e inspiram-se no cenário exagerado dos antigos estúdios fotográficos.

Waswo fotografa imagens digitais em monocromático, que são depois pintadas à mão pelo artista local Rajesh Soni (34) usando aquarelas.

Enquanto Waswo sempre foi um “purista do preto e branco”, ele afirma que o seu encontro com Soni o fez mudar de opinião. Por acaso, o avô e o pai de Soni costumavam pintar à mão fotografia para a família real de Udaipur.

“De certa forma, estamos a dar uma nova vida a uma arte antiga”, diz Soni.

A exposição apresenta três proeminentes séries de trabalhos de Waswo – Gauri Dancers, A Studio in Rajasthan e New Myths. Gauri Dancers apresenta imagens de artistas masculinos de Mewar (pertencentes à tribo Bhil) que vão de aldeia em aldeia interpretando contos de épicos.
Studio in Rajasthan apresenta cenas encenadas filmadas no estúdio Varda; enquanto New Myths apresenta pessoas vestidas como divindades.

Atrás das Cenas:

Waswo (que escolhe não explicar seu nome exclusivo) costumava ser fotógrafo em Milwaukee, nos EUA. Curioso acerca da Índia, visitou Delhi e Udaipur em 1993.

“Eu não sabia nada sobre Delhi. era ingénuo, eu nem tinha lido My Lonely Planet” afirma.

Em Delhi, foi abordado por um motorista de requixó, que o levou a um agente de viagens.

“O agente vendeu-me um pacote de viagem de 10 dias para Udaipur. Eu amei a cidade. Tem um lugar especial no meu coração ”, acrescenta.

Consequentemente, fez várias viagens à Índia antes de se estabelecer em 2003. Hoje vagueia entre o seu apartamento em Banguecoque, seu estúdio em Varda e a sua casa em Udaipur.

As pessoas chamam-me artista americano, mas eu considero-me um artista indiano”.

Presente Perfeito:

Enquanto os críticos acusam Waswo de propagação de estereótipos sobre a Índia, ele permanece imperturbável.

“Estas são fotos contemporâneas. Eu não vivo no passado; Euvivo no presente, em Udaipur, que é um lugar diferente. Esta é a vida real ”

Ele também esclarece que as obras não são representações etnográficas de uma comunidade, mas sim uma fantasia encenada.

Eu olho fotos antigas e as pessoas parecem tristes, como espécimes. Eu tento ter alguma vida em minhas fotos, algum personagem e personalidade”.

O trabalho de Waswo pode estar focado na Índia, mas ajudou-o a ganhar reconhecimento em todo o mundo. As suas fotografias foram exibidas em Amsterdão e Paris, entre outras cidades.

“A Índia tem sido boa para mim. Depois que vim para cá, tornei-me conhecido nacional e internacionalmente ”

Deixo a seguir o Documentário “A Studio in Rajasthan”, um documentário acerca da sua obra, para quem quiser conhecer melhor a obra deste fotógrafo-artista.. 

Rui Campos

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Repositorium MMLXVIII – Início dos trabalhos

A Associação Campos d’Arte (ACd’A) começou hoje os trabalhos de isolamento dos contributos diversos que nos chegaram ao longo dos últimos meses para serem depositados no #Repositorium2068 no próximo dia 8, quinta feira, dia em que também vai ser inaugurado o Conjunto Escultórico do SIAC3, em Vila Nova de Foz Côa, do qual o Repositorium faz parte. 

Começou-se por uma questão de urgência pelos trabalhos que o meu querido amigo, o escultor Pedro Figueiredo enviou. Uma cara em grés preto (segundo ele, as memórias estão na cabeça) e um pequeno esboço de uma escultura que em princípio (é o que se pretende hoje, em 2018) servirá para desafiar um escultor que a materialize em 2068, numa 53ª edição do SIAC (Simpósio Internacional de Arte Contemporânea). Segundo o Pedro, a esultura estava húmida por ter sido lavada antes de a trazer ontem e precisámos de a deixar a arejar até que esteja em condições de poder ser devidamente acondicionada para a colocar numa caixa estanque. Entretanto tratou-se do esboço. Apenas foi acondicionado entre duas folhas de papel vegetal, e mais tarde será devidamente isolado entre duas cartolinas e isolado contra temperatura e humidades. 

De seguida passou-se ao trabalho de acondicionamento e isolamento de um conjunto da imagens cedidas pelo #ProjectoReferentes, alma mater desta iniciativa e da qual o Repositórium é uma derivação e uma actividade no âmbito do SIAC3, cujo tema foi este ano “As Vanguardas da Memória“.  O #ProjectoReferentes cedeu pouco mais de uma centena de  imagens do Concelho de Foz Côa do século XX, a ACd’A cedeu outras tantas imagens que foram feitas em 2018 com os mesmos enquadramentos e composições das que existem do século XX e fez-se assim um trabalho que documenta muito bem a forma como a pausagem urbana se alterou ao longo de 9 décadas.

Houve o cuidado de se separarem as imagens em conjuntos pequenos a fim de minimizar as hipóteses de fatalidade generalizada. Em cada extremo de um conjunto uma cartolina e as imagens cada uma delas separada por uma folha de papel vegetal a fim de evitar que as fotografias se colem umas às outras.

Simbolicamente começou-se também a separar e isolar perto de centena e meia de imagens de pessoas que já foram identificadas no âmbito do #Projectoreferentes, a ACd’A irá também depositar junto as identificações de cada uma destas pessoas. A ideia é passar a mensagem de que há um pessado, uma identidade que vem “muito” de trás e que estas pessoas desejam que essa identidade e essas memórias sejam preservadas. 

Não são apenas pessoas que estão letentes nestas imagens. São nomes, apelidos, ascendentes e memórias. É a identidade de um povo, o povo fozcoense que vai vicar ali, durante 50 anos para que seja redescoberto pelos descendentes destas pessoas.

Nos próximos três dias estaremos a trabalhar intensamente para acondicionar devidamente todos e cada um dos contributos que nos chegaram de uma imensidão de pessoas naturais e não naturais do Concelho de Foz Côa, instituições públicas e privadas do Concelho e de fora dele, das quais se devem por imperativo de consciência destacar a Câmara de Municipal de Vila Nova de Foz Côa, que desde a primeira hora abraçou o projecto, o Museu Regional da Guarda, dinamizador do SIAC e por isso um dos padrinhos da iniciativa, mas também se devem assinalar os muitos artistas que participaram no SIAC3 , académicos de instituições de ensino superior diversas, profissionais de áreas diversas, bem como ilustres incógnitos do concelho de Foz Côa e representantes das diversas áreas da economia local. nfim, a iniciativa esteve aberta a todos os que desejaram nela participar. Uma última palavra para as escolas, pois são os alunos que sobreviverão a esta iniciativa e por isso os seus principais guardiões. São estes os contributos que nos vão obrigar a estar a trabalhar intensamente nos próximos dias para os acondicionar de forma criteriosa e segura de forma que sobrevivam à viagem de 50 anos que os aguarda.

Desde já, e para todos sem excepção, em meu nome, em nome da ACd’A e em nome do #ProjectoReferentes, desejo expressar a nossa gratidão imensa para todos aqueles que se desejaram associar a este iniciativa.

Rui Campos.

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3º Aberto para Obras e Repositórium MMLXVIII

Chegaram hoje perto de 360 fotografias alusivas ao Concelho de Foz Côa. São imagens repetidas do século XX e do século XXI que vamos depositar no Repositórium, no próximo dia 8.

Durante perto de três meses andei no encalço do meu avô. Procurando perceber os mesmíssimos lugares onde ele esteve e a forma como fez aproximadamente 190 imagens. Imagens que eu seleccionei com a finalidade de procurar encontrar os mesmos enquadramentos e composições que permitissem aos nossos sucessores daqui a 50 anos ficar com uma ideia de como o Concelho se alterou ao longo de 6 décadas (talvez mais). E daqui a 5 décadas, estou certo de que será interessante que alguém volte a procurar entregar os mesmos lugares a fim de os re-fotografar, procurando com isso consciencializar a comunidade do quanto o Concelho mudou. 

O #ProjectoReferentes deixa assim a sua marca para a posteridade. Um desdobramento deste projecto, materializado na Iniciativa Repositorium MMLXVIII, protagonizada pela Associação Campos d’Arte (ACdA) e no âmbito do SIAC3, iniciativa do Museu da Guarda, que este ano se estendeu para Foz Côa, e cuja temática deste ano foi “As Vanguardas da Memória“. Uma iniciativa que vai materializar-se, à semelhança de todas as obras produzidas no SIAC3 no 3º “Aberto para Obras” (Salão de Outono), dinamizado pelo Museu Regional da Guarda, e estendido, à semelhança do SIAC3, para Vila Nova de Foz Côa.

Não percam, no próximo dia 7, a inauguração do 3º “Aberto para Obras”  no Museu da Guarda, e no dia 8, pelas 14 horas em Vila Nova de Foz Côa, com a inauguração da exposição colectiva de gravura “Diálogos, o descerramento do conjunto escultórico do SIAC3, em Vila Nova de Foz Côa, o depósito do Repositórium MMLXVIII e uma grande e relevante surpresa

Rui Campos

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Amazing World

Comecei finalmente a trabalhar no meu livro “Amazing World“, o qual espero que venha a ser lançado em maio próximo. É um livro que estou a fazer desde a raiz. É um risco um fotógrafo fazer um livro acerca do seu trabalho e tratar da sua construção em todas as facetas, desde a linha gráfica, passando pelos textos (obviamente que a revisão dos textos pedirei a terceiros que a façam) e até à selecção das imagens. E, pode parecer um contra senso, mas a questão da selecção das imagens será sempre a tarefa mais difícil, porém um exercício fascinante este de estar permanentemente a lutar entre a imagem que melhor se adequa à linha gráfica e aquela que o fotógrafo gosta mais. A verdade é que é de facto um dos exercícios mais difíceis que um fotógrafo pode fazer. 

Quanto a conteúdos, bem, outro contra senso. O que é normal é que um fotógrafo escolha um tema e seleccione imagem obedecendo a esse tema. E eu, como alguns sabem, afirmo muitas vezes que a fotografia para mim é uma inquietação demasiado grande para que eu possa simplesmente permitir-me poder ver o Mundo inteiro e escolher vê-lo a partir de uma janela. Por isso encaro este livro como um qualquer passeio, no qual me permito a liberdade de não me cingir a um único género dentro da fotografia, mas beneficio de todos eles, tendo com isso a oportunidade de ver o Mundo sem espartilhos.

Para este livro tenho também alguns amigos e personalidades convidados. E pretendi pessoas dentro e fora da fotografia, numa tentativa de estabelecer uma reflexão acerca do que é afinal isto da fotografia, fora no entanto da dialética comum e redutora do equipamento, da técnica e das regras mas, mais ao género de John Berger:

“Seeing comes before words. The child looks and recognizes before it can speak. But there is also another sense in which seeing comes before words. It is seeing which establishes our place in the surrounding world: we explain that word with  word, but words can never undo the fact that we are surrounded by it. The relation between what we see and what we know is never settled (…) the way we see things is affected by the way we know or what we believe.”

Esta questão da dialética é também um mote para duas coisas relevantes que irão acontecer em 2019.

Rui Campos

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Paul Strand 128 Anos

Faz hoje 128 anos que nasceu Paul Strand, um dos incontornáveis da História da Fotografia e das Artes.

A Revista La Fundación, escreveu aquela que considero a sua biografia mais completa, a qual transcrevo aqui, No final deixo um pequeno sideo de Ted Forbes, também acerca deste fotógrafo. 

Nascido em Nova Iorque, Strand começou estudar com o fotógrafo social Lewis Hine na Ethical Culture School de Nova Iorque, entre 1907 e 1909, e posteriormente começou uma estreita amizade com Alfred Stieglitz, também fotógrafo e pioneiro na introdução da arte moderna nos Estados Unidos.

Strand conseguiu fundir estas duas poderosas influências, o social e a arte moderna. A partir de então, explorou o potencial da fotografia como instrumento de superação da visão humana através de retratos íntimos e detalhados, e da captação de matizes em formas mecânicas e naturais. Desde a década de 1930, nas suas diversas viagens ao sudoeste dos Estados Unidos, Canadá e México, desenvolveu projectos centrados em comunidades específicas, estudos de povos através de suas pessoas e dos elementos culturais que os identificam. Strand continuou a desenvolver este tipo de trabalhos baseados na viagem e no conhecimento que dela derivava durante o resto da sua carreira. O fotógrafo examinou as possibilidades da câmara mais a fundo do que qualquer outro artista antes de 1920.

Do pictorialismo à modernidade

(…) as primeiras obras de Strand, realizadas na década de 1910, e nas quais se aprecia o seu rápido domínio do estilo pictorialista predominante. (…)  a sua evolução em direcção às inovadoras fotografias de 1915-17, obras que exploram novas temáticas da paisagem urbana de Nova Iorque e ideias estéticas inovadoras que o aproximam da abstração. Estas novas orientações na fotografia de Strand evidenciam o seu crescente interesse tanto pela pintura contemporânea – especialmente pelo cubismo e pela obra dos artistas e fotógrafos americanos encabeçados por Alfred Stieglitz – como pelo descobrimento da fotografia como um meio essencial para dar expressão à modernidade.

A obra de Strand deste período também inclui cândidos e avassaladores retratos em primeiro plano de pessoas que observava na rua – os primeiros deste tipo -, bem como outras imagens que refletem o seu fascínio pelo ritmo de vida e pela mudança de escala na grande cidade moderna. Os retratos realizados nas ruas por Strand em 1916 são possivelmente tão inovadores como as suas experiências com a abstração. Nenhum fotógrafo antes de Strand havia tratado de transformar as pessoas comuns num tema tão monumental.

Do círculo de Stieglitz ao retrato da comunidade:

Durante os anos vinte – um período frequentemente denominado “a era das máquinas” -, Strand deixou-se cativar pela capacidade da fotografia de captar os fascinantes detalhes de peças mecânicas, ao mesmo tempo em que as suas ideias sobre a natureza do retrato começaram a se ampliar de um modo considerável. Estas novas e variadas inquietudes podem ser apreciadas na beleza sensual dos primeiros planos da sua esposa, e em inovadores e profundos estudos sobre a sua nova câmara cinematográfica. Strand estendeu estas ideias a uma série de fotografias realizadas em lugares fora de Nova Iorque, tais como o Maine, onde temas aparentemente comuns, como um tronco, uma pedra ou a simples vegetação, deram como resultado imagens surpreendentemente inovadoras.

Durante as décadas seguintes, Strand viajou incessantemente, motivado pelo seu interesse em ampliar o papel da fotografia. (…) a sua pesquisa sobre a capacidade da câmara de ilustrar a passagem do tempo e capturar as qualidades específicas de um lugar, como o Novo México, através dos seus edifícios abandonados. Além disso, contém a etapa na qual Strand viveu no México (1932-1934) e mostra a sua volta em direcção a um tema central: o retrato de indivíduos anónimos. Este período no exterior influenciou-o profundamente, intensificando o seu compromisso com a política de esquerda. Muitas das obras do momento mostram uma profunda empatia com o lugar e suas pessoas.

Além disso, nesta seção é apresentado um dos filmes mais significativos de Strand: Manhatta (1921), o primeiro que realiza, e uma importante colaboração com o pintor e fotógrafo Charles Sheeler. Considera-se este breve “documentário cénico” a primeira fita vanguardista norte-americana. Retrata a vibrante energia da cidade de Nova Iorque, onde ocorre a justaposição do drama humano das ruas com perspectivas tomadas a partir de altos edifícios que se tornam abstractas em vista de pássaro, e cenas do ferry e do porto, tudo isso acompanhado pela poesia de Walt Whitman.Nesta colaboração, a intenção dos fotógrafos foi aplicar os seus singulares conhecimentos, adquiridos graças às suas experiências com a imagem fixa, à imagem em movimento -com a finalidade de registar, através de uma selecção consciente e de preenchimento dos espaços, esses elementos que expressam o espírito de Nova Iorque, o seu poder, a sua beleza e o seu movimento.

Esboços da história e da modernidade

Na década de 1940, os livros seriam transformados na forma preferida de Strand para apresentar a sua obra, porque lhe permitiam combinar a capacidade expressiva da fotografia e a narrativa do cinema. O livro foi para Strand uma etapa que oferecia uma colaboração artística a escala muito menor que o cinema, mas que poderia chegar a um público igualmente amplo. Em cada um de seus foto-livros colaborava com um escritor que redigia ou editava os textos combinados com suas fotografias. Strand tinha expectativas muito altas com relação à reprodução das suas fotografias, e os livros eram publicados em pequenas edições a um custo muito alto.

(…)

Nas suas fotografias de Nova Inglaterra, Strand utiliza a história cultural do lugar para transmitir uma ideia do passado e do presente que sugerisse uma luta incessante em prol da democracia e da liberdade individual. Este trabalho, materializado na publicação de Time in New England [Tempo na Nova Inglaterra] reflecte o seu compromisso político e foi publicado em 1950, ano no qual Strand se muda para a França motivado pelo crescente sentimento anticomunista nos EUA Encontramos inquietudes similares em seu projeto realizado na França e publicado em
1952 em La France de profil [O perfil da França].

Em Luzzara (Itália) dirigiu a sua atenção às realidades quotidianas de um povo do norte que se recuperava das misérias da guerra e do fascismo. Este trabalho se concentra em imagens dos moradores locais e satisfaz a sua velha aspiração de criar uma importante obra de arte em torno a uma única comunidade. As fotografias deram lugar ao livro Un Paese: Portrait of an Italian Village [Um povoado: Retrato de um povoado italiano] (1955), acompanhado de um texto de Cesare Zavatini. Un Paese é, de um modo simples mas profundo, um livro sobre a vida quotidiana.

Em 1963, Strand viajou para Gana a convite de Kwame Nkrumah, primeiro presidente após o final do domínio britânico. Fascinado pela incipiente democracia do país, Strand estava entusiasmado com a oportunidade de fotografar um lugar que experimentava, a alta velocidade, uma relevante mudança política e grande modernização. Apreciava os esforços de uma nação de recente independência por traçar um futuro que convivia lado a lado com os aspectos tradicionais da cultura própria. Neste projeto, o retrato teve uma presença essencial. A suas fotografias do país foram publicadas em 1976 em Gana: An African Portrait [Gana: Um retrato africano].

Nos seus últimos anos, Strand passa cada vez mais tempo na sua casa de Orgeval, nos arredores de Paris, focando frequentemente a sua atenção nos inumeráveis descobrimentos que fazia dentro do seu próprio jardim e que, em muitas ocasiões, são um reflexo de sua obra anterior.

Tal e com referi no início deste artigo, deico a seguir um video de Ted Forbes sobre Paul Strand:

Rui Campos

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“How Garry Winogrand Transformed Street Photography”

“A new documentary, “All Things Are Photographable,” traces how the legendarily prolific photographer pulled his art form into modernity.”

By Richard Brody

Justamente no mesmo dia em que eu publiquei aquilo que seria uma “Bucket List” de filmes e documentários sobre fotógrafia (não ficcional), Richard Brody, crítico de cinema, da revista New Yorker desde 1999, publica  um artigo no qual referencia o lançamento de um novo documentário relacionado com nomes da Fotografia. Neste caso o fotografo homenageado foi Garry Winogrand.

O documentário vai estrear no próximo dia 19 e intitula-se “All Things Are Photographable”. Foi dirigido por Sasha Waters Freyer.

E segundo o jornalista trata-se de “Indicios acerca de como o lendário e prolifico fotógrafo  trouxe a sua forma de arte para a modernidade”.

Segundo o autor do artigo, as primeiras imagens de Winogrand que este viu, nos anos 70 do século passado, foram as primeiras imagens que realmente o fascinaram e que lhe despertaram de facto a atenção da fotografia sobre as outras formas de criação artística.


New York, 1968.Photograph by Garry Winogrand © The Estate of Garry Winogrand / Courtesy Fraenkel Gallery

O jornalista afirma que este documentário coloca o trabalho do fotógrafo “convincentemente no contexto da sua vida turbulenta e a política apaixonada dos tempos de então.  Afirma também que acima de tudo, aquilo que o documentário descreve a singular forma de trabalhar do autor e demonstra como os cânones artísticos das décadas de 60 e 70 do século passado são inseparáveis desta sua forma de trabalhar. Acrescenta que este fotógrafo transformou a fotografia de uma arte de observação inicial em uma arte de perticipação, tal como fica demonstrado pela selecção criteriosa de imagens para o documentário. O jornalista afirma ainda que Winorand, recorrendo à sua 28mm não se mantinha afastado das cenas, mas envolvido nelas; a sua lente mantinha-o no centro do espaço o qual era então rodeado pelos seus objectos e eventos e, em vez de observar ou capturar a sua energia, participava dela. Richard Brody acrescenta também que a própria agitação exterior e interior do fotógrafo era encontrada nesta circunstância e que Winogrand unificava estas duas energias no campo de visão da sua câmara.


Protest, date unknown.Photograph by Garry Winogrand © The Estate of Garry Winogrand / Courtesy Fraenkel Gallery

Depois de algumas considerações acerca da forma como o trabalho de Winogrand fica definitivamente ligado ao trabalho que alguns cineastas fizeram anteriormente com a obra de outros fotógrafos, o jornalista acrescenta mais um dado que deve ser considerado relevante: A forma como Winogrand transformou a mera presença dos seus objectos em participantes e como estes eram cúmplices nas suas criações fotográficas.

Isto aparentemente rompe com os fundamentos daquilo que era suposto ser a Fotografia de Rua, os quais advogam a ausência de qualquer participação do fotografo nas cenas. Ainda assim, Winogrand percorreu o seu próprio caminho e com ele transformou, como refere o autor do artigo, a fotografia de rua, trouxe-a para a contemporaneidade e fez dela uma forma de arte.

O jornalista acrescenta ainda que Winogrand desenvolveu uma técnica extraordinária para criar um determinado grau de invisibilidade, mas apenas um grau, nada mais. Depois de explicar uma parte do documentário que reflete a sua forma de trabalhar, confrontada posteriormente com alguns pares, refere-se a forma singular de pegar na câmara e deixaram claro o efeito claro dessa forma de a manusear nas suas imagens.  Ele operava a câmara tão rápido que as pessoas chegavam a duvidar que ele tinha realmente feito a fotografia.

O jornalista ainda se refere à sua estratégia como “adversa a contacto e adversa a conflito” como sendo uma forma de conseguir as imagens, mas ainda assim construiu com ela uma estética própria.


Los Angeles, 1964.Photograph by Garry Winogrand © The Estate of Garry Winogrand / Courtesy Fraenkel Gallery

Espero que este resumo do artigo, o qual contém bastante mais informação relevante acerca do fotógrafo e do seu documentário biográfico vos tenha despertado a curiosidade para o ler na sua forma original, como este deve ser lido.

Para terminar importa ligar este post àquele que escrevi ontem acerca da bucket list de filmes não ficcionais acerca de fotógrafos. Ainda não vi este, mas espero ver em breve e estou quase certo de que este será obrigatório para qualquer pessoa que tenha o bom senso de perceber que fotografia é algo que vai muito além de saber como usar uma câmara.

Rui Campos.

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