Herb Ritts – N. 13/08/1952

Se Herb Ritts fosse vivo faria hoje 66 anos.

Trata-se de um dos meus fotógrafos preferidos, e por isso não quero deixar de o lembrar. Ritts é um dos meus fotógrafos favoritos porque, baseado nos cânones existentes em relação aos fotógrafos de glamour e de famosos, conseguiu reinventar abordagens de forma quase infinita e elevar os famosos ao estatuto de Deuses, tal e como isso acontecia antes de Gaspard Felix Tournachon, mais conhecido por Félix Nadar. Antes de Nadar, os famosos eram fotografados como Deuses. Nadar despiu-os dessa pretensão e passou a apresentá-los como pessoas normais.

Acontece que Herb Ritts conseguiu, muitos anos depois, e sem recorrer a adereços, a cenários ou a subterfúgios, conseguiu regressar à época pré Felix Nadar. Parece que fazia magia com a pele e os respectivos corpos, uma vez que não precisava de mais nada. A Fotografia de Ritts é directa, tal como Paul Strand advogava. Cingia-se apenas às formas, às expressões e juntava na maior parte dos casos a esta simplicidade a evocação do desejo e da luxúria. Foi de resto o seu trabalho que inventou as supermodels de finais do Século XX. A seguir a Ritts regressou-se aos adereços que na pratica ofuscam a personalidade dos retratados.

Parece uma contradição, mas a verdade é que Ritts pegou nos fundamentos da Straight Photography e, graças à aplicação destes em modelos e famosos, regressou à época pré-Nadar. Ao luxo, à teízaçaõ dos seus modelos, ao mundo do glamour. E com uma objectividade e simplicidade que são desarmantes em relação a qualquer argumento. Está lá, é ver e ser convencido. Sem serem necessárias palavras.

Com todas estas características, assente nos mestres e noutros fotógrafos que como ele fizeram moda e fotografaram famosos, reinventou abordagens uma e outra vez, criou uma nova linguagem e influenciou o Mundo de forma vertical, desde as editoras e famosas publicações, atravessando os modelos e terminando nas Massas. Ritts dominou completamente as vontades editoriais das ultimas três décadas do Século XX. Toda a gente o queria e estava disposta a pagar para isso. Até então a esmagadora maioria dos fotógrafos tudo faziam para serem queridos.

Mas Ritts não foi apenas fotógrafo, foi muito mais que isso. Se fosse vivo faria hoje 66 anos. Morreu em Dezembro de 2002, com 50 anos, jovem e com muito para dar ao Mundo.

Por incrível que pareça, ninguém lhe seguiu os passos de forma consistente, pese embora a sua infuência, julgo que era inimitável. E o facto de ninguém lhe ter conseguido seguir os passos garante-lhe um lugar eterno no passeio da fama da fotografia porque faz dele ainda mais exclusivo e inimitável.

O Jornal The Guardian, refere-se assim a Herb Ritts no seu obituário, por alturas da sua morte, em 26 de Dezembro de 2002. A tradução é quase integral porque julgo que é difícil acrescentar muito mais a este texto. Limitei-me a acrescentar alguns links e imagens para tornar o artigo mais completo e interactivo. Os que dedicarem algum tempo a ler esta peça vão com toda a certeza enriquecer-se e alimentar a vontade de saber mais acerca deste nome ímpar da Fotografia da segunda metade do século XX.

“Herb Ritts, o fotógrafo de glamour que morreu aos 50 anos, nasceu do dinheiro, da luz solar de Los Angeles, da beleza corporal californiana da casa de praia em Malibu e da cabana em Catalina e da casa principal (a de Steve McQueen) porta para o rancho de 27 quartos da família. Não que ele tenha tido a intenção de ganhar a vida sendo apenas californiano.

Em 1975, formou-se em economia e estudou história da arte, antes de retornar a West Hollywood para trabalhar para a empresa de mobiliário da família, vendendo adereços para sets de filmagem. Também fez um curso de fotografia de retrato a preto e branco.

Em 1978, quando tinha 26 anos e se estava a divertir, Ritts e o seu (então desconhecido) ator Richard Gere, tiveram um furo no seu Buick Le Sabre enquanto conduziam pelo deserto fora. Gere trocou o pneu, e então posou numa garagem em San Bernardino, suado com uma camisola de alças vestida, e cigarro provocador na boca. “Não me consigo lembrar se lhe disse para colocar os braços sobre a cabeça ou se eu apenas cliquei quando ele se espreguiçou”, disse Ritts sobre sua sessão fotográfica improvisada de Richard Gere, que, passado um ano, era uma estrela. Publicidade: No ano seguinte, abriu caminho para o set de The Champ, e fez uma foto rápida de John Voight que entrou na Newsweek.


Ritts adaptou-se ao gosto emergente da época, a cultura hollywoodiana de alto conceito e cultura de moda que venerava o corpo perfeito e o rosto célebre. Como Bryan Appleyard escreveu: “É difícil dizer o que veio primeiro – Ritts ou o culto do ginásio – mas são a mesma coisa”. Com o zeitgeist* do seu lado, Ritts tardou apenas cinco anos a chegar à capa na revista Vanity Fair, Harper’s Bazaar, Vogue, GQ e Interview. Filmou a nova costura de Gianni Versace e Calvin Klein, onde as roupas eram decorações supérfluas nos corpos tonificados de supermodelos como Christy Turlington e Naomi Campbell. Em 1989, fez um retrato de grupo de todo o elenco da Supermodel dom, nu – sem cenário, sem ambiência, apenas os corpos. Adorava músculos desenvolvidos, a brincadeira sob a pele, como na foto da atleta Jackie Joyner-Kersee, cuja cabeça e ombros são visíveis apenas como sombras na areia, para melhor se concentrar nas coxas a correr.

Atleta Jackie Joyner-Kersee, cuja cabeça e ombros são visíveis apenas como sombras na areia, para melhor se concentrar nas coxas a correr.

atleta Jackie Joyner-Kersee, cuja cabeça e ombros são visíveis apenas como sombras na areia, para melhor se concentrar nas coxas a correr.

Muitos de seus nus e sujeitos parcialmente nus, como a parte superior do corpo de Fred With Tires, Hollywood 1984 – a base de uma propaganda da Levi jeans – não parecem ser fotografias de seres humanos, são imagens de estátuas de bronze habilmente texturadas.

A sua predilecção por modelos negros vinha do brilho da sua pele sob lâmpadas de estúdio ou do sol africano, sob o qual ele também fotografava requintadamente os temas masai, como obras de arte.

A sua abordagem aos retratos de celebridades também era abstrata. Não permitia a desordem através do obturador para distrair dos recursos conhecidos. Apenas os fundamentos iconográficos estavam presentes. O sorriso perverso de Jack Nicholson foi ampliado por uma lupa, ou meio escondido por uma mão nos seus Ray Ban’s.

(ver mais imagens de Herb Ritts aqui)

Glenn Close olhou através de uma caricatura de um palhaço pintado no rosto. Quando Monica Lewinsky posou para Ritts, os estilistas fizeram dela uma menina má de cidade pequena. Ritts foi direto aos seus enormes lábios maduros.

A sua outra abordagem não era exatamente uma narrativa, mais uma montagem de desenho animado – como Cindy Crawford, nua, numa capa da Vanity Fair. Pode ser capa de um videoclip: Ritts também dirigiu videoclips, ganhando dois prêmios da MTV em 1991. Os cantores nos seus vídeos entrelaçam-se com o elenco de apoio – incluindo Britney Spears e modelos masculinos – mas permanecem emocionalmente isolados.

No entanto, a frieza em todos os sentidos do trabalho de Ritts não deixava os seus sujeitos ansiosos. Estes sabiam que ele estava do lado deles: “O seu propósito era sempre que os artistas entendesse bem o que se pretendia fazer”, disse Gere. Ritts sentia-se confortável com todo mundo e também confiava – mostrou Christopher Reeve num perfil heróico na sua cadeira de rodas, Stephen Hawking lutando até a articulação, Elizabeth Taylor ostentando sua cicatriz na cirurgia do cérebro e uma sessão ainda a ser publicada com o secretário da ONU o general Kofi Annan.

Trabalhou na publicidade com sucesso, idealizando uma camiseta da Gap tão bem quanto o rosto de Nelson Mandela ou os peitorais de Brad Pitt; ele também fez campanhas para Donna Karan, Revlon e Tag Hauer. Mas Ritts também queria ser apreciado como artista e, para esse fim, publicou antologias de imagens, incluindo Work (1997), e fez grandes exposições em Boston (1996) e Paris (2000).

O seu livro de 1993 sobre África foi concebido para projetar a sua visão como séria, mas, em entrevistas, disse com entusiasmo que todas as suas modelos “posavam como naturais”. Sempre atencioso, enviou-lhes cópias do volume que custava US $ 50 e disse a amigos que a sua elegante leoa matando uma gazela – poderia ser uma supermodelo usando uma pele Armani – foi fotografada a partir de um bar, onde ele estava, suficientemente perto para a ouvir partir os ossos da carcaça. .

Ritts disse aos seus pais que ele gay na faculdade, muito antes de tal anúncio ser aceitável. A sua mãe, Shirley, estava orgulhosa dele. “Herb tem grande integridade”, disse ela, “H”

Rui Campos

P.S.
Muitas destas crónicas estão espalhadas por aqui e ali. Um dos propósitos deste blogue é também fazer a sua compilação e republicá-las aqui, para que fiquem todas no mesmo lugar a fim de favorecer o acesso a elas a quem assim o desejar. Esta, acerca de Herb Ritts foi redigida em 13 de Agosto de 2018, a fim de celebrar o 66º aniversário do seu nascimento

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