Por Estes Dias Celebra-se a Fotografia.

“O problema para os fotógrafos na viragem do século XIX para o século XX foi que a fotografia básica tinha ficado tão fácil que não havia distinção nenhuma em ser fotógrafo. Então teria de se desenhar um novo sistema que separasse as ovelhas dos Deuses”

John Szarkowski
Director Emérito do Museu de Arte Moderna (MoMA)

Adolf Fassbender – Onward, 1937

Isto nunca me pareceu tão actual como agora. Acontece que agora toda a gente, de todas as camadas da sociedade insistem em fazer da fotografia Arte. E outros há que, ainda que não sejam credenciados, ainda que ninguém lhes tenha conferido o estatuto de Historiadores de Arte, ou sequer foram convencionados por uma comunidade que os aclame como especialistas, se atrevem a decretar do alto da sua cátedra que “isto é arte“.

Não, nem tudo é Arte. peço desculpa pela desilusão, mas nem tudo é arte, ainda que um académico qualquer diga isso lá do alto. 

A minha fotografia, como já o escrevi tantas vezes, não a vejo como arte. Assim, já para início de conversa, antes que venham por aí alguns com o previsível argumento de “tens a mania” e nada mais trazem que possa justificar uma conversa enriquecedora. 

É muito bom e desejável que se celebre a fotografia. É muito mau que qualquer pessoa, ainda que académica de uma determinada área que não as Artes, decrete que “isto é arte“. É bom que se recorra à fotografia no âmbito da investigação científica. É muito mau que depois, intencionalmente ou não, essas mesmas entidades se esqueçam dos propósitos e dos argumentos com que a ela recorreram e depois desejem fazer de um recurso, a fotografia, uma enorme celebração e, intencionalmente ou não, se esqueçam do argumento da investigação com que recorreram à fotografia para logo de seguida a colocar no capítulo da cultura e das Artes. Não que seja proibido, não se possa fazer, mas é no mínimo intelectualmente desonesto fazê-lo sem pelo menos o assumir objectivamente. Pior ainda, quando as pessoas envolvidas não são do campo das artes mas, e também de forma dissimulada, e também não sei se intencionalmente ou não, carreguem na sua chancelaria o Decreto que lhes dá o poder, o know how e a reserva e autoridade moral para decretar a Arte. 

Alfred Stieglitz deu em 1902, origem ao movimento photo-secessionista para romper como aquilo que ele próprio designava de “lixo comercial” e de “fotografia amadora sem qualquer sombra de arte” 

O Pictorialismo, como acabou por ficar conhecida uma das consequências do movimento fundado por Stieglitz, interveio no processo por via do recurso de técnicas específicas, como por exemplo, espalhar vaselina nas lentes, ou pela gravação directa no negativo. Isto eram técnicas que eram usadas com um propósito específico, o de retirar à fotografia todo o seu automatismo e transformá-la num processo mais manual, humanizado e aproximando-a por isso das artes.

Outros movimentos houve ao longo da história, todos eles igualmente válidos, e todos eles defendendo princípios e teorias de abordagem, abordagens estas que depois iriam referir a técnicas específicas, porém estas técnicas tinham o propósito de justificar e defender essas teorias, não o objectivo de produzir imagens avulsas e apenas porque sim.

Robert Demachy, Speed (1904)

Hoje assiste-se todos os dias a celebrações da fotografia, a declarações certificando que este ou aquele trabalho é Arte. Quem define isso é o Tempo, deixem-se de tretas.

Uma coisa é ver uma imagem de Yuri Beletsky e desejar aprender a técnica para imitar o efeito. Para isso lê-se uma explicação e adquire-se algum equipamento, depois gastam-se uns milhares de euros em viagens e vai-se a lugares distantes para se trazer coisas assim, como se vê na imagem a seguir.

Eu não tenho rigorosamente nada contra aqueles que acham ser este o caminho. Mas tenho tudo contra académicos que mais tarde vêm declarar isto, estas folhas soltas, rabiscos de caderno de apontamentos que são apenas úteis para se perceber limites e formas de os aplicar numa linguagem própria, Arte. E, claro está, há também alguns fotógrafos que fazem estas coisas, alguns até escrevem livros e tudo, que julgam que isto é Arte. Mas continuam a ser fotógrafos, não artistas, nem que eles próprios insistam nisso. 

Nenhum deles será artista enquanto, nenhum dos seus trabalhos será arte enquanto um historiador de Arte não analizar um conjunto de factores relacionados com a conjuntura, com o Contexto da obra e do seu autor e com a consequência dessa produção. Por isso, peço imensa desculpa pela desilusão, mas ter estrelas muito bonitinhas alinhadas em ciclos concêntricos em cima de uma paisagem remota jamais será considerado arte porque não há consciência de uma mudança, da criação de um novo paradigma, da criação de uma nova tendência e muito menos se está a criar absolutamente nenhuma nova dialética. Não é arte nem que a imagem tenha 10 “Gosto” (sim, dez) numa qualquer rede social ou plataforma. Está-se pura e simplesmente a fazer um registo recorrendo a um conjunto de técnicas que levam a esse resultado. Está-se pura e simplesmente a criar mais do mesmo

Yuri Beletsky, star trails, Agosto de 2016

Depois vai-se a sites de fotografia e tudo o que se encontra é igual, igual, igual, igual. parece que não, mas estes sites são mesmo aborrecidos, é mesmo tudo igual. Toda a gente fotografa da mesma forma. Por exemplo, quando se observam fotografias de retrato, a única diferença entre umas e outras reside nos modelos e nas poses.

Não há voz própria, apenas repetição infinita de técnicas e estilos que variam de forma cíclica à medida que alguém inventa uma técnica nova de photoshopar a imagem.

É tudo igual porque não se fotografa com o coração e o intelecto, não se encontra na fotografia uma voz, uma forma de expressão, de intervenção nas questões da actualidade. Fotografa-se com o caderno de apontamentos e com a vontade de conseguir fazer igual. Quão deprimente pode ser isto para um fotógrafo?

E voz própria, está onde?
E a defesa de uma proposição?
E o estabelecimento de uma premissa?
E a procura de um caminho novo, inovador?
E o conflito entre o artista e a sua própria circunstância que o impelem a procurar outros caminhos, a inovar?

Nada, nada disso existe.

Mas é tudo Arte. 

Normalmente tudo que se inova com estas abordagens é na construção de arte e imagem digital que depois insistentemente, e não sei porquê, porque eles próprios, os autores destes trabalhos, de seguida fazem questão de desvalorizar muitos bons trabalhos de arte digital ao procurar rotulá-la de… fotografia! Mas são inferiores, se afirmarem que “isto não é fotografia, mas sim arte digital“?

Que lógica é que isto tem?

Hoje não se celebra a fotografia. Hoje celebram-se interesses camuflados de fotografia e instrumentaliza-se a fotografia para alavancar outros interesses

Não basta ter um gabinete e um nome numa porta para decretar o que quer que seja em relação à fotografia. É preciso ir lá meter as mãos na farinha, amassar e esperar que o Tempo e os Historiadores de Arte declarem que existe pertinência nessas abordagens anos, décadas depois. No mínimo é preciso ser-se considerado pelos seus pares. 

Só assim se tem voz própria. E voz própria é coisa cada vez mais escassa… infelizmente não é apenas na fotografia. 

Porque é que acham que Van Gogh ainda não foi esquecido? Se calhar porque ele encontrou uma dialética diferente para o seu trabalho que ainda hoje continua a fazer sentido, ou porque ele andava a imitar técnicas? Se calhar é famoso por aquela coisa da orelha, querem ver?

Andar a imitar e esperar reconhecimento por isso… enfim… “de loucos todos temos um pouco“.

Celebre-se pois a fotografia!

Rui Campos. 

Please follow and like us: