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Mito: "Quanto mais Caro é o Equipamento, Melhores são as Fotografias e o Fotógrafo"

Ao longo dos últimos anos tenho-me dedicado bastante ao ensino da fotografia. Esta experiência tem-me mostrado que a fotografia nos dias que correm tem imensos mitos. Um dos principais advém do contexto economicista em que vivemos: “Quanto mais caro é o equipamento, melhores são as fotografias e o fotógrafo”.

Em 17 de Novembro de 2015 chegou-me uma Olympus E420 com uma objectiva 14-42 f/3.5 – 5,6. Uma câmara que foi lançada no ano de 2008. Gastei 120,00 euros e comprei um equipamento digital com o qual me proponho fotografar sempre que sair para esse efeito durante os próximos 365 dias. Passado esse tempo apresentarei aqui neste site o resultado do projecto que dessigno de #LowCostProject na altura que me parecer mais conveniente.

Daqui a um ano espero ter impresso um conjunto de fotografias e apresentar também aquilo que se pode imprimir com uma câmara barata (não necessariamente má). Desejo com isto demonstrar que a fotografia está verdadeiramente democratizada, acessível a todas as bolsas e deixar à consideração de todos aqueles que gostarem mais ou menos do meu trabalho e da minha abordagem se é preciso ou não investir centenas e até milhares de euros em equipamentos. Se é preciso trocar o equipamento que adquirimos há dois anos por aquele modelo novo que foi lançado agora.

A minha profunda convicção é a de que para fazer fotografia não é necessário equipamento profissional. É preciso sim Trabalho e dedicação. A fotografia devolve-nos única e exclusivamente aquilo que investimos nela, mas não estou a falar de dinheiro.

Com este trabalho desafio todos os que se querem iniciar na fotografia e julgam que não têm capacidade financeira para o fazer a seguir-me o exemplo. Comprem usado (não necessariamente mau) e atrevam-se a brilhar.

Um conjunto de filmagens feitas por mim em 2014 foram cedidas à autarquia de Vila Nova de Foz Côa para fazer parte de um trabalho de caracterização do Xisto do Poio que terminou em exposição. As filmagens foram editadas pelo Pedro Daniel e pelo Dinis Ângelo.

I gave to the Vila Nova de Foz Côa municipality a set of filming made by me in 2014 to be part of a work to characterize Poio shale that ended in exposure. The filming was edited by Pedro Daniel and Dinis Ângelo.

O #Projecto_LXV tem estreia marcada para Julho, em Vila Nova de Foz Côa. Se tiver interesse em ver este projecto exposto perto de si ou desejar mais informações, contacte-nos.

#Projecto_LXV is scheduled to debut in July in Vila Nova de Foz Côa. If you are interested in viewing this project near you or want more information, please contact us.

O valor testemunhal, artístico e cultural da Fotografia dispensa considerações. Em 65 anos esta forma de expressão conheceu muitos paradigmas e reflectiu-os. Estando estes muito bem patentes para qualquer olhar mais atento e capaz de enquadrar uma qualquer imagem no Espaço e no Tempo.

A fotografia à medida que foi desbravando caminhos e conhecendo paradigmas também foi como é óbvio, alvo de instrumentalizaçao, tendo estado na base de muitas designadas de políticas de visibilidade. A título de exemplo podemos referir a Propaganda, o AgitProp ou até o de movimentos artísticos identitários mais complexos como Movimento Construtivista Russo ou até servindo de suporte a teorias meramente estéticas, como exemplo o Vorticismo de Ezra Pound, ao qual Paul Strand deu voz nalguns dos seus ensaios fotográficos. Os cânones estéticos, as distintas abordagens, a própria postura de maior ou menor proximidade perante os assuntos e até a reacção das pessoas perante o fotógrafo alteraram-se muito nos últimos 65 anos. E por isso é legítimo afirmar que a abordagem dos fotógrafos de hoje é forçosamente diferente da abordagem que faziam os fotógrafos há 65 anos atrás.

E uma comunidade? Obviamente que mudará mais em relação a alguns aspectos e menos em relação a outros. A comunidade fozcoense tem desde que há memória uma grande devoção ao culto a Nossa Senhora. E é este o ponto em comum.

Há 65 anos, precisamente no meio do Século XX, o meu avô paterno fez a reportagem fotográfica da visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima a Foz Côa. Recorreu para tal a uma abordagem que estava obviamente condicionada pela sua forma de interpretação do evento, pela tecnologoia que usou, pela sua própria relação com a comunidade e por uma série de outras condicionantes. Afinal, como Ansel Adams disse “Não fazemos uma fotografia apenas com uma câmera; ao acto de fotografar juntamos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos e as pessoas que amamos”,

No ano de 2015, 65 anos depois, coube-me a mim fazer a cobertura do mesmo evento e condicionado precisamente pelos mesmos factores. Nasceram com isto dois trabalhos que, se nos dermos ao trabalho de lhes dar voz e oportunidade, poderão comunicar com o observador de inúmeras formas. Porém eu sou um defensor da máxima de que “a obra nasce e liberta-se do seu criador”, e por isso sou avesso a explicações exaustivas ou textos que possam condicionar a leitura dos visitantes. Considero que as interpretações são como a liberdade. Um direito. Por isso conclusões deixo para os senhores visitantes que podem escolher interpretar este trabalho a partir da perspetiva religiosa e, na certeza de que a devoção do povo fozcoense na Nossa Senhora é inabalável e reconhecer este trabalho como testemunho disso mesmo. Ou pelo contrário, alguns visitantes podem eventualmente ser mais eruditos nesta coisa da fotografia e deliciar-se a interpretar e identificar em cada uma delas diferentes escolas, abordagens, correntes artísticas e condicionantes tecnológicas. Ou porque não, outros que façam a sua abordagem e interpretação e sem que esta se baseie em nenhuma destas perspetivas.

Em resumo, eu gostaria que o #ProjectoLXV pudesse ser entendido como o contraponto de um avô e um neto que em 65 anos de intervalo tiveram a sorte de se poder reencontrar num lugar comum e, mais importante, conversaram e entenderam-se.

Em termos técnicos considero importante justificar apenas uma das opções trabalho. Em relação às fotografias antigas, elas foram editadas de forma a dar coerência ao trabalho em termos de cor. As ferramentas de hoje em dia permitem restauros completos e exemplares de imagens antigas, mas eu quis ser sensível a duas questões: A primeira é a de que aos olhos da disciplina da Conservação e Restauro “apenas se devem intervencionar as obras se as zonas afectadas condicionarem a leitura da mesma”. Por outro lado, esta mesma disciplina adverte de que “o restauro deve ser completamente visível sob pena de este poder ser considerado uma falsificação”. A segunda é a de que não me teria parecido nada correcto intervencionar estas fotografias com 65 anos e correr o risco de apagar as marcas da passagem do tempo nelas latentes. 

Saiba mais aqui:

Rui Campos 

(english)
The testimonial, artistic and cultural value of Photography dispenses considerations. In 65 years this form of expression has known many paradigms and reflected them. These are very well visible for any closer look and capable of framing any image in Space and Time.  

Photography as it explored paths and knowing paradigms was also, of course, the target of instrumentalization, having been the basis of many designated visibility policies. As an example, we can refer to Propaganda, AgitProp or even more complex artistic movements such as the Russian Constructivist Movement or even to support purely aesthetic theories, such as the Vorticism of Ezra Pound, to which Paul Strand gave voice in some of the His photographic essays. The aesthetic canons, the different approaches, the very posture of greater or lesser proximity to the subjects and even the reaction of the people to the photographer have changed a lot in the last 65 years. And so it is fair to say that today's photographers approach is necessarily different from the approach photographers made 65 years ago.  

And a community? Obviously it will change more in relation to some aspects and less in relation to others. The community of Foz Côa have since memory has a great devotion to the cult of Our Lady. And this is the point in common.  

Sixty-five years ago, precisely in the middle of the 20th century, my paternal grandfather made the photographic report of the visit of the Pilgrim Image of Our Lady of Fatima to Foz Côa. He resorted to an approach that was obviously conditioned by his way of interpreting the event, the technology he used, his own relationship with the community, and a number of other constraints. After all, as Ansel Adams said "We do not do a photograph with just a camera; To the act of photographing we put together all the books we read, the films we saw, the music we heard and the people we loved".

In the year 2015, 65 years later, it was up to me to cover the same event and conditioned precisely by the same factors. Two works were born with this, that if we bother to give them voice and opportunity, they can communicate with the observer in countless ways. But I am a supporter of the maxim that "the work is born and freed from its creator," and so I am averse to exhaustive explanations or texts that may condition the reading of visitors. I believe that interpretations are like freedom. A right. That is why I leave to the visitors who can choose to interpret this work from the religious perspective and, in the certainty that the devotion of the people of Fozco in Our Lady is unshakable and recognize this work as a testimony of it. On the contrary, some visitors may eventually be more erudite in this photography thing and delight in interpreting and identifying in each of them different schools, approaches, artistic currents and technological conditioning. Or why not, others who make their approach and interpretation and without it being based on any of these perspectives. 

 In summary, I would like #ProjectoLXV to be understood as the counterpoint of a grandfather and a grandson who in 65 years of interval were lucky enough to be able to find themselves in a common place and, more importantly, they talked and understood each other. 

In technical terms I consider it important to justify only one of the options work. In relation to the old photographs, they were edited in order to give coherence to the work in terms of color. Today's tools allow for complete restorations and copies of old images, but I wanted to be sensitive to two issues: The first is that in the eyes of the Conservation and Restoration discipline "only works should be intervened if affected areas condition The reading of it ". On the other hand, this same discipline warns that "the restoration must be completely visible under penalty of being considered a forgery." The second is that I would not have thought it right to intervene these photographs at the age of 65 and risk erasing the marks of the passage of time in them dormant.  

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Rui Campos